Navigation Menu+

Instigar, o Ofício

Posted on Mar 30, 2015 by in Textos |

Nunca ficava em cima do muro. Não que suas opiniões valessem alguma coisa, pois só as utilizava para semear uma pequena porção de discórdia entre as pessoas, manipulando-as para ver até onde conseguiam discutir de forma saudável e até quando conseguiriam guardar aqueles pensamentos trancados a sete chaves. “Todos tem uma concepção sobre algo, não importa o que. Mas preferem levá-la para o túmulo, do que entrar em debates cansativos e eternos”, explicou-me em certa ocasião. “Eu só quero livrar as pessoas dessa pressão interna”, e sorriu aquele sorriso irritante de quem tem plena confiança em si e sabe o que faz. Via-se como um ser altruísta, mas no fundo queria ser o catalisador do caos.

Outro dia estávamos em uma festa e resolvi observar sua maneira de atuar. Antes de tudo, escutava atento às conversas alheias e depois trocava meia dúzia de palavras com os diversos grupos que se formavam, enquanto esperava os copos de whisky serem tomados. Não tinha pressa e saboreava as diferenças de pensamentos que sem querer as pessoas expressavam, colhendo assim a sua munição.

Então quando via bochechas rosadas e ouvia línguas tropeçando nos erres, sabia que era o momento de tomar as rédeas da situação.

Começava por discordar de alguns e concordar com outros para em seguida inverter os papéis e concordar com aqueles e discordar destes. “Esse é o segredo”, sua voz me confessava na memória, enquanto o observava. “O assunto é sempre o de menos. Seja lá o que falarem, jogue de um lado e depois do outro. As pessoas tendem a se aliar numa discussão e ficam confusas quando alguém fica indo e vindo entre panelinhas”.

Eu quieto ficava atônito com suas cutucadas pontuais num rapaz que acabara de apoiar, para favorecer outro moço em seu argumento absurdo sobre ruas e calçadas. Enquanto os dois começavam uma série de alegações, ele puxava grupo que estava próximo a dupla e o inseria no assunto, apresentando beltrano para sicrano e apontando suas distintas crenças. Era incrível como ele tinha poder de instigar nas pessoas o desejo de debater e se expressar. Até eu me esforçava para segurar as palavras.

No entanto, era tudo muito rápido e conforme o diálogo esquentava, nenhum deles percebia a ausência de meu conhecido. E, por incrível que pareça, tampouco eu notara. Não saberia dizer quanto tempo ficara absorvido pela discussão, só saberia dizer que o havia perdido de vista.  Meus olhos passaram a correr pelo salão a sua procura e pude observar braços agitados, gargalhadas altas e algumas ofensas surgindo aqui e ali, sinal de que ele havia estado entre aquelas pessoas.

Um toque no meu ombro desviou minha atenção. Era meu colega:

– E ai, simples não? – indagou sorrindo enquanto admirava toda aquela tensão no ar.

– Olha, é realmente impressionante. Só que ficou um clima meio pesado na festa. – respondi.

– Ah, mas isso é que é o divertido. – Disse olhando para o lado, onde um senhor comentava com o garçom que era para segurar um pouco a bebida. – Opa, boa noite Sr. C. Como está? Bela festa, hein?

– Olá rapaz, obrigado. A festa tá bonita, mas alguns ânimos estão se exaltando. – confessou o anfitrião.

– É verdade, é uma pena. Tava até comentando com meu companheiro aqui que é preciso saber se controlar. Por isso farei que como ele e ficarei aqui mais afastado para evitar qualquer confusão.

O Senhor C. esticou o pescoço e olhou para mim.

– Não tá gostando da festa, garoto?

– Oi? – olhei do salão para ele, meio sem entender.

– Quis saber se não está gostando da festa. – Repetiu entre um gole de whisky e outro.

Fiquei perdido.

– Ah… Não… Quero dizer, a festa tá bem bonita…

– Mas… – emendou o senhor.

– M-mas…? – Gaguejei sem saber o que responder

Estava tão confortavelmente quieto aqui no meu canto antes de ter que me incomodar com o dono da festa. Se ao menos meu colega não tivesse vindo falar comigo… Foi como num estalo que percebi: ele não estava mais ali entre o senhor e eu.

Voltei a olhar para o salão em sua busca e o encontrei já na porta de saída com aquele sorriso maldito e me acenando um até logo.

5