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Textos egóticos e estressantes

Desaqueça, por favor.

Posted by on 20:19 in Textos | Comments Off on Desaqueça, por favor.

– Por favor, gelo para o café! – Pediu depois que o líquido amargo queimou a boca e adoçou a imagem dela.

Segundo gole.

A cafeteira na mesa coava histórias.
A mão dela brincava com cubos de açúcar.

Terceiro gole.

O perfume dela que saía da xícara tornou-se líquido em seu rosto.
Cristaizinhos de açúcar espalhados na mesa.

Quarto gole.

O sorriso dela fundia-se ao vapor. Riu das tentativas de encontrar os olhos femininos no meio daquela neblina.
A mesa estava limpa.

Quinto gole.

Levantou. Deixou lembranças a serem coadas. As que aqueceram sua garganta, escorriam pela face.

Abriu a porta. Saiu. Foi em busca de neve. Neve para a vida…

14-desaqueca

Uma vez mais

Posted by on 19:05 in Textos | Comments Off on Uma vez mais

A bala tinha que explodir seu cérebro antes que abrissem a porta. A arma despenteava o cabelo sobre a orelha.

As lembranças empurravam o gatilho e as batidas na porta o emperravam. Retratos observavam.

O desespero do trinco adormeceu o braço. O giro da maçaneta tirou seu ar. Três liberdades atingiram a parede ao lado da porta, criando mais três manchas vermelhas sobre algumas semi-úmidas e outras já secas. O clique seco da arma o desmontou.

-Por que não tentou escapar?

Não conseguiu proteger o rosto, um punho já estava lidando com seu queixo. Os assobios no ar martelavam sua pele. O arrependimento escorria pelos cortes.

Apagou.

***

A cama acolhia seu corpo. Manchas roxas e riscos vermelhos na pele gritavam algo. As manchas amarelas e cicatrizes já haviam se calado.

A arma era parte da sua mão direita. A foto na esquerda socou a memória.

No claro, uma inocente.
No escuro, uma tentadora.

No claro, a garota sorria.
No escuro, a garota encolhida.

No claro, aquecida.
No escuro, fria.

Amassou a imagem e a atirou, acertando um dos vários retratos na parede. Tentou gritar, mas engasgou, soltando um grunhido.

-Parece que alguém acordou de novo. – veio a voz do lado de fora do quarto.

Nas paredes, a garota o olhava. Paralisou. No escuro, um borrão vermelho.

Passos.

No claro, ouviu a respiração.
No escuro, o último suspiro.

De repente, as manchas roxas e os riscos vermelhos falaram dos assobios. As três batidas na porta mostraram a arma. A voz que vinha da porta levou sua mão direita à cabeça.

No escuro, olhar vazio. Nas paredes, sorrisos.

A bala tinha que explodir seu cérebro antes que abrissem a porta.

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O gole e o desejo

Posted by on 03:14 in Textos | Comments Off on O gole e o desejo

Sentada no sofá, observava a fumaça do cigarro fugir pela janela. A determinação da porta e os oito passos a fizeram dar uma longa e última tragada. A lâmpada aquecia as fotos da mesa ao lado, enquanto iam afundando nas lágrimas do copo com o líquido diluído.
Uma sombra cresceu sobre ela. Apagou o cigarro nas bitucas do cinzeiro. Dedos secaram as nascentes em seu rosto. Mãos, braços, ombros e halo.

-A gente precisa conversar… – disse a outra.

Tateou a parede atrás de si.
Click.
O som do interruptor ressonou nos porta-retratos. Rios desceram em direção à foz. Dez passos. A mesma porta lamenta.
Ela acende outro cigarro. Traga. A fumaça sai em busca da janela.
Com doze passos e duas rodinhas gemendo, a outra para na porta de entrada.

-Você sabe porquê eu to fazendo isso… Por favor…

Tragou e apagou o cigarro pela metade. Pegou o copo. A porta suspira. Catorze passos no corredor. O portão consente.
Memórias nasciam e transbordavam cada vez mais pela face. Fragmentos de fotografias afundavam. Ela, então, tomou o último gole de conforto.

12-Goles

Estrela

Posted by on 17:43 in Textos | Comments Off on Estrela

11-Luz

Vago

Posted by on 15:02 in Textos | Comments Off on Vago

10-Bosques

Something like:

wandering
you got all those names
and I’m still nameless in your forests

Veja-me

Posted by on 21:36 in Textos | Comments Off on Veja-me

Deixar os outros para traz era o que mais fazia e era também o que fazia de melhor. Seus comentários eram sempre pontuais e sutis.

Considerava-se esperto suficiente para não notarem, mas suas atitudes não eram novidade para ninguém do seu convívio.

Calculista quando precisava e cativante suficiente para arrancar um suspiro aqui e outro ali num primeiro contato, não levava muito tempo para entenderem que o que ele queria mesmo era deixar os outros se aproximarem apenas para mostrar sua superioridade.

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O Lado que Não Veem

Posted by on 14:37 in Textos | Comments Off on O Lado que Não Veem

Argumentos não eram um recurso que ele utilizava de forma ativa e contra-argumentos simplesmente não existiam.

Assim, os diálogos com ele e contra ele eram verdadeiros monólogos. Preferia manter-se calado e passivo nas discussões, pois sentia como se estivesse sempre errado.

Optar pelo silêncio era sua fuga. Afinal, se as pessoas não entendiam o seu ponto de vista, o problema basicamente não era dele.

8-12fps

À Frente de Todos

Posted by on 17:09 in Textos | Comments Off on À Frente de Todos

Ele era sempre o vencedor das disputas que montava em sua cabeça. Como motorista parado esperando o sinal abrir, como pedestre esperando o sinal fechar, ou como consumidor em uma mesa de bar. Não importa onde estivesse, o que fazia, com quem estava. Suas ações eram pautadas em arrancar primeiro, chegar primeiro, consumir primeiro.

A vida era um túnel para apenas uma pessoa.

E essa pessoa só podia ser ele.

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O Custo do Convite

Posted by on 19:44 in Textos | Comments Off on O Custo do Convite

Há muito ele já admitia o motivo pelo qual gosta de receber visitas. Amigos, parentes e vizinhos, a nova namorada do irmão, a amiga de sua mãe ou o casal que acabara de se mudar para a casa ao lado. Ser anfitrião virara seu hobby. Nada o satisfazia mais que observar e escutar quão fascinadas ficavam as pessoas ao entrar em sua casa. Isso fazia valer as horas de limpezas e preparativos para a recepção.

Na noite em questão, seis pessoas sentavam-se à sua mesa: dois amigos e uma amiga, ambos do trabalho e com seus respectivos companheiros. Agrados e elogios eram recorrentes da conversa. Nem um só objeto passara despercebido pelos olhos vislumbrados dos convidados. Ao término da noite, acompanhou-os até a porta. Agradeceram-lhe pela excepcional receptividade e ambiente maravilhoso. “Depois disso tudo, tenho até vergonha te de convidar pra nossa casa”, confessara-lhe um de seus convidados.

Considerava muito todos eles. Exceto o marido de sua colega, que não demonstrara muita disposição para paparicar o anfitrião. Sentiu pela moça, que era excelente companhia, pois dificilmente convidaria o casal para outra confraternização.

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Instigar, o Ofício

Posted by on 21:54 in Textos | Comments Off on Instigar, o Ofício

Nunca ficava em cima do muro. Não que suas opiniões valessem alguma coisa, pois só as utilizava para semear uma pequena porção de discórdia entre as pessoas, manipulando-as para ver até onde conseguiam discutir de forma saudável e até quando conseguiriam guardar aqueles pensamentos trancados a sete chaves. “Todos tem uma concepção sobre algo, não importa o que. Mas preferem levá-la para o túmulo, do que entrar em debates cansativos e eternos”, explicou-me em certa ocasião. “Eu só quero livrar as pessoas dessa pressão interna”, e sorriu aquele sorriso irritante de quem tem plena confiança em si e sabe o que faz. Via-se como um ser altruísta, mas no fundo queria ser o catalisador do caos.

Outro dia estávamos em uma festa e resolvi observar sua maneira de atuar. Antes de tudo, escutava atento às conversas alheias e depois trocava meia dúzia de palavras com os diversos grupos que se formavam, enquanto esperava os copos de whisky serem tomados. Não tinha pressa e saboreava as diferenças de pensamentos que sem querer as pessoas expressavam, colhendo assim a sua munição.

Então quando via bochechas rosadas e ouvia línguas tropeçando nos erres, sabia que era o momento de tomar as rédeas da situação.

Começava por discordar de alguns e concordar com outros para em seguida inverter os papéis e concordar com aqueles e discordar destes. “Esse é o segredo”, sua voz me confessava na memória, enquanto o observava. “O assunto é sempre o de menos. Seja lá o que falarem, jogue de um lado e depois do outro. As pessoas tendem a se aliar numa discussão e ficam confusas quando alguém fica indo e vindo entre panelinhas”.

Eu quieto ficava atônito com suas cutucadas pontuais num rapaz que acabara de apoiar, para favorecer outro moço em seu argumento absurdo sobre ruas e calçadas. Enquanto os dois começavam uma série de alegações, ele puxava grupo que estava próximo a dupla e o inseria no assunto, apresentando beltrano para sicrano e apontando suas distintas crenças. Era incrível como ele tinha poder de instigar nas pessoas o desejo de debater e se expressar. Até eu me esforçava para segurar as palavras.

No entanto, era tudo muito rápido e conforme o diálogo esquentava, nenhum deles percebia a ausência de meu conhecido. E, por incrível que pareça, tampouco eu notara. Não saberia dizer quanto tempo ficara absorvido pela discussão, só saberia dizer que o havia perdido de vista.  Meus olhos passaram a correr pelo salão a sua procura e pude observar braços agitados, gargalhadas altas e algumas ofensas surgindo aqui e ali, sinal de que ele havia estado entre aquelas pessoas.

Um toque no meu ombro desviou minha atenção. Era meu colega:

– E ai, simples não? – indagou sorrindo enquanto admirava toda aquela tensão no ar.

– Olha, é realmente impressionante. Só que ficou um clima meio pesado na festa. – respondi.

– Ah, mas isso é que é o divertido. – Disse olhando para o lado, onde um senhor comentava com o garçom que era para segurar um pouco a bebida. – Opa, boa noite Sr. C. Como está? Bela festa, hein?

– Olá rapaz, obrigado. A festa tá bonita, mas alguns ânimos estão se exaltando. – confessou o anfitrião.

– É verdade, é uma pena. Tava até comentando com meu companheiro aqui que é preciso saber se controlar. Por isso farei que como ele e ficarei aqui mais afastado para evitar qualquer confusão.

O Senhor C. esticou o pescoço e olhou para mim.

– Não tá gostando da festa, garoto?

– Oi? – olhei do salão para ele, meio sem entender.

– Quis saber se não está gostando da festa. – Repetiu entre um gole de whisky e outro.

Fiquei perdido.

– Ah… Não… Quero dizer, a festa tá bem bonita…

– Mas… – emendou o senhor.

– M-mas…? – Gaguejei sem saber o que responder

Estava tão confortavelmente quieto aqui no meu canto antes de ter que me incomodar com o dono da festa. Se ao menos meu colega não tivesse vindo falar comigo… Foi como num estalo que percebi: ele não estava mais ali entre o senhor e eu.

Voltei a olhar para o salão em sua busca e o encontrei já na porta de saída com aquele sorriso maldito e me acenando um até logo.

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