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Uma vez mais

Posted on Jun 5, 2015 by in Textos |

A bala tinha que explodir seu cérebro antes que abrissem a porta. A arma despenteava o cabelo sobre a orelha.

As lembranças empurravam o gatilho e as batidas na porta o emperravam. Retratos observavam.

O desespero do trinco adormeceu o braço. O giro da maçaneta tirou seu ar. Três liberdades atingiram a parede ao lado da porta, criando mais três manchas vermelhas sobre algumas semi-úmidas e outras já secas. O clique seco da arma o desmontou.

-Por que não tentou escapar?

Não conseguiu proteger o rosto, um punho já estava lidando com seu queixo. Os assobios no ar martelavam sua pele. O arrependimento escorria pelos cortes.

Apagou.

***

A cama acolhia seu corpo. Manchas roxas e riscos vermelhos na pele gritavam algo. As manchas amarelas e cicatrizes já haviam se calado.

A arma era parte da sua mão direita. A foto na esquerda socou a memória.

No claro, uma inocente.
No escuro, uma tentadora.

No claro, a garota sorria.
No escuro, a garota encolhida.

No claro, aquecida.
No escuro, fria.

Amassou a imagem e a atirou, acertando um dos vários retratos na parede. Tentou gritar, mas engasgou, soltando um grunhido.

-Parece que alguém acordou de novo. – veio a voz do lado de fora do quarto.

Nas paredes, a garota o olhava. Paralisou. No escuro, um borrão vermelho.

Passos.

No claro, ouviu a respiração.
No escuro, o último suspiro.

De repente, as manchas roxas e os riscos vermelhos falaram dos assobios. As três batidas na porta mostraram a arma. A voz que vinha da porta levou sua mão direita à cabeça.

No escuro, olhar vazio. Nas paredes, sorrisos.

A bala tinha que explodir seu cérebro antes que abrissem a porta.

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